segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Dona Onete, a "Rainha do Brega do Pará"

Dona Onete, a Rainha do Brega do Pará Segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024. Dona Onete - A história de sucesso de Dona Onete, com crédito do - Nexo Jornal, vide abaixo a matéria. A história do sucesso de Dona Onete - do "Nexo Jornal" de Camilo Rocha 03/09/2017 (atualizado em 05/Setetembro). Cantora paraense desafia padrões da indústria, o ‘Nexo’ ouviu três profissionais que acompanharam de perto seu crescimento para entender seu sucesso. Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/09/03/A-história-do -sucesso-de-Dona-Onete de 2017. Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA,conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida. “Talento naif” é uma das maneiras como o produtor Carlos Eduardo Miranda se refere a Dona Onete. O som da cantora paraense, que gravou seu primeiro álbum em 2012, aos 73 anos, tem mesmo algo de espontâneo. Sua voz calejada desponta como um registro quase rústico, sem lapidação, e diferencia de cara a música de Dona Onete em meio a tantos vocais bem produzidos e tecnicamente corretos que se ouve no dia a dia. Esta diva sênior do “carimbó chamegado”, como ela mesmo chama sua música, marca presença pelo contraste, na contramão da obsessão pelo jovem e pelo novo. Nos shows, Dona Onete só canta sentada. Sua música e apresentações vêm carregadas de simpatia e sensualidade. Em 2015 e 2016, a senhora paraense apareceu em programas de destaque da TV Globo, como o “Encontro com Fátima Bernardes” e o “Fantástico”, e excursionou por países como Portugal, França e Estados Unidos. Seu vídeo mais visto no Youtube, “No meio do Pitiu”, tem 2,8 milhões de visualizações. A professora de história que cantava Ionete da Silveira Gama nasceu em 1938. Havia se estabelecido há décadas na cidade de Igarapé-Miri, localidade com 57 mil habitantes às margens do rio Tocantins que tem o apelido de “capital mundial do açaí”. Dona Onete cantava há muito tempo, mas nunca havia pensado em carreira. Seu trabalho regular por 25 anos foi como professora de história. Também se envolveu com política. No início da década de 1980, se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT) de Igarapé-Miri. Visitou o ABC Paulista nessa época e fez algumas apresentações. Ocupou o cargo de secretária da Cultura de Igarapé-Miri. No início dos 2000, um jovem grupo de Belém chamado Coletivo Radio Cipó conheceu Dona Onete ao ouví-la cantar em um bar no bairro da Pedreira. Convidou ela e outro veterano, o Mestre Laurentino, para se juntar a eles no palco. Os dois passaram a excursionar regularmente com o Radio Cipó. A música paraense ganha espaço O Pará sempre contou com uma variada cena musical. Até os anos 2000, com exceções pontuais como Fafá de Belém, seus artistas saíam pouco do estado. Em 2003, uma nova gestão assume a Funtelpa (Fundação Paraense de Radiodifusão), que administra canais de rádio e televisão públicas estaduais. Uma das primeiras medidas da nova administração foi o aumento da presença da música feita no estado nesses veículos. “Foi ali que começamos a fazer um grande trabalho de expor a música paraense”, contou ao Nexo Ney Messias, diretor da Funtelpa à época. No espaço aberto para novos artistas, apareceu também o Coletivo Radio Cipó, com Mestre Laurentino e Dona Onete. O executivo da emissora conheceu então a cantora pela primeira vez. “Fiquei maravilhado. A primeira analogia que fiz foi "É a Cesária Évora da floresta”, lembrou, em referência à cantora cabo-verdiana de projeção internacional. “Foi o Ney que teve a ideia de valorizar a música paraense”, explicou o produtor musical Carlos Eduardo Miranda ao Nexo. “Primeiro, começaram a tocar na rádio, depois começaram a botar a música ao vivo na TV paraense”. A abertura do Terruá Pará Nesse contexto, surge a ideia de criar um festival para apresentar os estilos e artistas do Pará em São Paulo. O primeiro Terruá Pará aconteceu no Auditório do Ibirapuera em 2006. Miranda foi convidado por Messias para ser o diretor artístico. “O Miranda teve a ousadia e a audácia de colocar dona Onete para abrir o festival”, disse Messias. “Ela nunca tinha enfrentado um palco daquela categoria e tamanho”. De acordo com Miranda, nesse tempo Dona Onete ainda era “uma velhinha professora de escola, muito simples, muito fora de tudo”. Além de dona Onete na abertura, o festival trouxe artistas do estado como Gaby Amarantos, Felipe Cordeiro, Gang do Eletro e Sebastião Tapajós. Miranda sugeriu várias mudanças no som dos paraenses, “limpando os arranjos” enquanto valorizava o elemento da raiz. O segundo "Terruá" só aconteceu em 2011, pois o grupo responsável pelo primeiro deixou a gestão da cultura entre 2006 e 2010 por motivos políticos. Mais uma vez, dona Onete abriu os trabalhos no Auditório do Ibirapuera. “É a raiz feita de maneira dançante, festiva, comunicativa, sem se meter a ser moderninha, sem tentar ser cabeça” disse o Carlos Eduardo Miranda, produtor musical tremor do jambu. “Nesse processo, Dona Onete não só se encontrou como artista, como enxergaram o potencial dela”, declarou Carlos Eduardo Miranda. Em 2012, Dona Onete gravaria seu primeiro álbum, “Feitiço caboclo”, com produção do cantor e compositor paraense Marco André, veterano do cenário regional. “É a raiz feita de maneira dançante, festiva, comunicativa, sem se meter a ser moderninha, sem tentar ser cabeça” Carlos Eduardo Miranda Produtor musical É neste álbum que surge o primeiro sucesso, “Jamburana”, uma homenagem à cachaça de jambu, erva famosa por amortecer a boca. A bebida tem efeito parecido. Na letra gaiata de Dona Onete virou “tremor”: “O tremor do jambu é gostoso demais… Chegar até o céu da boca, a boca fica muito louca.” A referência ainda faz conexão com as novas gerações: a palavra “treme” é “jargão” do tecnobrega, presente em músicas de Gaby Amarantos e Gang do Eletro. Em 2016, Dona Onete passa a ser empresariada pelo recifense Geraldinho Magalhães, que tem no currículo nomes como Lenine, Sandra de Sá e Jards Macalé. “Ela ganhou então um planejador de carreira”, explicou Messias. No mesmo ano, saiu seu segundo álbum, “Banzeiro”. “Quando vi ao vivo pela primeira vez a percebi numa zona fora de conforto, falavam dela e não achei aquilo tudo”, contou Magalhães ao Nexo. “Se é que houve planejamento, foi esse tratamento de trazer para ela uma banda que lhe desse conforto. Ela é uma artista de talento, mas não tem uma técnica incrível, nem formação. É muito intuitiva e natural. Requer conforto musical.” O sucesso online Os entrevistados pelo Nexo enfatizam o papel da internet no sucesso de Dona Onete. “Ela mesmo reconhece que a internet fez a diferença na carreira dela”, afirmou Magalhães. “Fosse em outra época, estaria dependente de outras mídias. Por causa da internet, ela se tornou o que é: querida por vários nichos e públicos.” O que atrai as pessoas ao som de Dona Onete, afinal? “É a raiz feita de maneira dançante, festiva, comunicativa, sem se meter a ser moderninha, sem tentar ser cabeça”, disse Miranda. “É meio um talento ‘naif’, mas super-refinado, porque a escola dela veio do bolero, que ela chama de ‘chamegado’”. Geraldinho Magalhães concorda, exemplificando com uma história: “Uma vez, em Nova York, estava com meu amigo Bernard Purdie, diretor musical da Aretha Franklin. Ele disse que a Dona Onete era espetacular, que ela tinha uma voz de ouro. Então, esse lado primitivo é relativo, sua musicalidade é impressionante e ela é muito sofisticada”. E o que diz a própria Dona Onete sobre tanto interesse em seu trabalho? “Acho que talvez seja essa minha humildade, meu jeitinho carinhoso com as pessoas. Lá no Pará o abraço é muito forte. Quando a gente se abraça, sentimos o corpo do outro”, afirmou em entrevista à revista Carta Capital. Nota de Esclarecimento: Este texto teve o título alterado. Originalmente, era "O primitivismo refinado de Dona Onete". O termo "primitivismo" foi usado dentro de um dos sentidos que ele possui no campo das artes. Na acepção pretendida, ele se refere a uma abordagem, um jeito de fazer que se caracteriza pela simplicidade, certa pureza, em que o artista realiza seu trabalho alheio à cultura dominante ou ao mercado. Geralmente, este artista não conta com formação técnica tradicional, não fez escola de artes, aulas de música ou conservatório. Neste contexto, consideramos que ele não é um termo pejorativo, nem de julgamento de qualidade. Por outro lado, entendemos que ele possa dar margem a interpretações diferentes da intenção do jornalista quando optou por seu uso. Por este motivo, decidimos trocar o título. ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que o jambu é uma fruta, quando na verdade é uma erva. O nome da cidade natal de Dona Onete também estava grafado erroneamente como Igarapé-Mirim. A primeira informação foi corrigida às 14h16 e a segunda às 19h16, ambas no dia 4 de setembro de 2017. Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/09/03/A-história do sucesso de Dona Onete em 2017. Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA, conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida. Blog do Ademir Rocha, em 12/02/2024

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